Criando um bom parceiro

 


É cultural; não temos o cuidado consciente de moldarmos nossos atos para construirmos e conduzirmos relações fortes, duradouras e realmente produtivas. Debatemos-nos com as situações conflitantes - inerentes às novas relações - sem promover a clareza necessária de nossos anseios e de nossas contribuições.

Nossas relações com nossos animais também são assim. Definir objetivos dessa relação, “comunicá-los” ao cão por meio de uma linhagem accessível, são pontos fundamentais (principalmente durante a recria) para que tenhamos a formação de um animal emocionalmente saudável e pronto para um convívio agradável em nosso dia-a-dia. Quanto a essa linguagem, se faz necessário desenvolver a capacidade de comunicar-se com o cão na linguagem dele, considerando os valores e organizações sociais da “matilha”, buscando trazê-los ao nosso mundo comunicativo a partir dos moldes de comunicação inerentes a eles e que podem ser observados, estudados e utilizados por nós. Forçá-los ao entendimento rápido e objetivo de nossos valores e modos de comunicação é humanizá-los demais, é fazer com que percam, rapidamente, suas características mais diferenciadas e mais admiráveis, é “arrastá-los” para nosso nível e não “trazê-los” ao nosso convívio.

Cabe aqui minha visão como treinador de cães de trabalho: “Se tê-los em nosso universo de mero convívio já é algo que merece correção, imagine levá-los a serem participantes de nossas atividades produtivas ou desportivas”. Polir as pré-disposições de determinados indivíduos caninos (ou raças), em nosso beneficio, é algo a ser muito bem pensado. Esse animal se colocará à nossa disposição; sem entendimento apropriado, estará pronto a nos servir, nos acompanhar, nos proteger, obedecer-nos, expor-se a riscos em nosso nome e em nome de nossos objetivos. Muitos condutores ou proprietários levam isso ao extremo e colocam toda carga de suas expectativas e ansiedades nos “ombros” dos cães. Tais fatos podem ser fatais ao individuo canino ou mesmo a uma raça inteira. Daí a importância de se ter responsabilidade plena pela presença de um desses animais em nosso dia-a-dia.

Se observarmos e respeitarmos certos “direitos caninos” teremos bons resultados em nossa relação com essa espécie, como:

  • O cão terá oportunidade de desenvolver-se física e mentalmente em boas condições
  • O cão terá disponibilidade de uma socialização justa e natural
  • Terá alimentação adequada a todas as suas etapas de desenvolvimento
  • Terá diversas oportunidades de desenvolver e demonstrar seu caráter e habilidades caso isso não ocorra nas primeiras ocasiões.

Escolhendo Um Filhote.

Informação é a chave de tudo. Assim, pergunte-se:

1. Para que quero esse cão?
Se for um cão de trabalho, você sabe se a raça escolhida tem aptidões para a função? Você tem que ter consciência que MESMO exemplares da mesma raça terão comportamentos diferenciados. Alguns exemplares possuem qualidades mais adequadas do outros, e isso ocorre até mesmo com exemplares da mesma ninhada.

Se for um cão para exposição, você está consciente das necessidades e dos investimentos a serem feitos no transcorrer de um campeonato? Mesmo com genética aprimorada, um filhote é sempre uma caixinha de surpresas que precisa ser decifrada todos os dias; só assim é que seu bom potencial genético virá à tona.

Se for um cão de companhia, a escolha deve ser pautada pelas características pessoais e familiares do proprietário, além de observar as condições do espaço de vivencia destinado ao cão e o tipo de atividade e atenção a ele disponibilizadas.

2. Onde e com quem ele viverá?
Você tem consciência de que MESMO um cão de trabalho precisará ser socializado para que possa TRABALHAR em conjunto com o ser humano? E que a recria desses animais é extremamente especifica? Por exemplo: um cão de guarda deve ter uma rotina diferente daquele que não é usado em segurança, seu treinamento é especifico e não somente algo inerente a certas raças ou mesmo indivíduos? (não são somente instintos que fazem um cão de guarda)

A pessoa que comandará o cão tem INTERESSE em fazê-lo? E se tem, terá CONDIÇÕES de ser um bom líder para este cão?

O investimento na aquisição de um cão (qualquer que seja a finalidade) é o PRIMEIRO investimento. Você tem condições de fornecer toda a infra-estrutura para que ele se desenvolva de fato e possa TRABALHAR? Cão com fome, anêmico ou não adequadamente imunizado não faz greve, mas também não trabalha.

3. Que características físicas e comportamentais esperam desse cão? O seu criador pode oferecê-las?
Um cão tem fases de desenvolvimento. Você tem que estar atento a elas e não esperar do cão o que ele não pode dar. Um excelente cão de guarda, não será eficiente aos cinco meses, um cão de pastoreio não enfrentará a pressão do rebanho aos seis ou sete meses, um cão guia de cegos não estará pronto ao completar um ano. Assim devemos lembrar que: “em uma mangueira todas as frutas amadurecerão; cada uma há seu tempo, no seu dia; cada uma com seu sabor”.

A escolha de um filhote com pedigree, aumenta as suas chances de adquirir um cão com boas características. A maioria dos criadores que possuam este tipo de animal lhe dará garantias importantes sobre o novo amigo. Por essa razão, a escolha do filhote deve ser cautelosa e sem pressa. Procure nos pais as habilidades que você gostaria de ter no seu filhote, observe as características físicas e busque animais que estejam dentro dos padrões descritos para cada raça é a maneira mais fácil, além de se ter maior chance de adquirir boa genética.

Existem diversos testes, descritos passo a passo, que poderão ser utilizados. Procure sempre alguém ligado seriamente a cinofilia e busque ajuda, quanto mais informação mais chances de sucesso. É importante frisar que muitas raças que foram intensamente popularizadas, sofrem e sofreram mais com os acasalamentos indesejados e, assim, resultados indesejados são muito mais freqüentes. Chegamos ao ponto de termos alterações comportamentais e/ou mudanças completas de funções de certas raças (diferenças em relação às descrições de seus padrões oficiais)

4. Minha visão sobre a posse de um cão é realista? Ou baseia-se em elementos abstratos, puramente sentimentais ou mesmo Holliwoodianos ?
Não existe cão que venha com Manual Interno de Procedimentos ou Botão de liga e desliga. Tudo é 100% convívio. Tudo é 100% dedicação e entendimento da própria condição e valores caninos. Se nós, seres teoricamente conscientes de nossos atos, temos lá nossos “dias de cão”, que dirão eles próprios. Acreditar que um trabalho de adestramento poderá determinar o “sonhado” comportamento do cão é mero engano. Além de muitos comportamentos caninos estarem ligados a fatores genéticos, nem todo adestrador será capaz de conseguir bons resultados com todos os cães. Procedimentos que funcionam com um, não funcionaram com todos, assim profissionalismo e respeito às características individuais são fundamentais.

5. Que proposta de vida tenho para esse cão?
Existem pessoas que desejariam poder ter um cão “Bonsai”. Que permanecesse como um pequeno filhote a vida toda. É claro que não estamos falando só de tamanho, pois isso se resolveria com a posse de um animal de raça miniatura. A questão é comportamental e se confronta diretamente com o lado afetivo -muitas vezes mal resolvido - dos tais proprietários. Cães devem ser cães sempre. Humanizá-los em demasia ou querer que sejam só o que desejamos são grandes injustiças com esses animais. Ai voltamos à questão da escolha consciente, da opção estudada, da informação prévia como arma mais eficiente contra a desilusão.

Cães que não correspondem as tarefas á eles atribuídas, que não atingem os objetivos de convívio doméstico, ou com idade avançada ao ponto de cair no esquecimento familiar, tornam-se um grande problema ético e sanitário. O abandono desses cães nas ruas ou mesmo dentro das casas, sítios e empresas (sem os devidos cuidados que lhes são de direito) traz à tona a face mais cruel dessa relação homem X cão. E assim, quem menos tem culpa paga o preço por uma relação mal estabelecida.

Existem diversos testes, descritos passo a passo, que poderão ser utilizados. Procure sempre alguém ligado seriamente a cinofilia e busque ajuda, quanto mais informação mais chances de sucesso.

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